A FIFA escolheu o TikTok como a sua primeira Preferred Platform para o Mundial de 2026, dando à rede social um papel mais profundo no ecossistema digital do torneio do que qualquer outra plataforma teve até agora.
O acordo, anunciado a 8 de janeiro e válido até ao final de 2026, inclui a criação de um hub dedicado ao Mundial dentro da aplicação, maior acesso a conteúdos oficiais da FIFA, um programa global estruturado para criadores e novas oportunidades para os parceiros de media da FIFA distribuírem e monetizarem vídeos selecionados e transmissões ao vivo no TikTok. A plataforma compromete‑se ainda a reforçar as medidas antipirataria.
Segundo Mattias Grafström, secretário‑geral da FIFA, o objetivo passa por “partilhar a emoção do Mundial 2026 com o maior número possível de adeptos”, considerando o TikTok uma peça central para essa missão.
Um acordo marcado pela incerteza nos EUA
A parceria surge num momento em que o futuro do TikTok nos Estados Unidos – um dos três países anfitriões e o mercado comercial mais relevante do torneio – continua indefinido. Ao abrigo do Protecting Americans from Foreign Adversary Controlled Applications Act, a plataforma pode enfrentar uma venda forçada das suas operações no país ou mesmo uma proibição, caso as autoridades concluam que a ligação à ByteDance representa riscos para a segurança nacional.
Os prazos de aplicação da lei têm sido adiados e os planos de reestruturação continuam em curso, mas nada está decidido. Para a FIFA, esta incerteza é significativa: os EUA vão acolher a maioria dos jogos do Mundial alargado a 48 seleções e representam a maior fatia de receitas de publicidade, patrocínios e transmissões. Qualquer limitação ao TikTok no mercado norte‑americano afetaria diretamente o alcance e o retorno comercial da parceria.
Uma aposta calculada de ambas as partes
Para o TikTok, o acordo reforça a sua posição no panorama global dos media desportivos, num momento em que procura demonstrar estabilidade e viabilidade a longo prazo nos EUA. Estar integrado no maior evento desportivo do mundo, maioritariamente realizado em solo norte‑americano, aumenta a pressão sobre os reguladores antes de qualquer decisão futura.
Já a FIFA parece ter estruturado o acordo para reduzir riscos. O TikTok não recebe direitos de transmissão de jogos, e os parceiros de media continuam a ter um papel central. Assim, a FIFA beneficia do alcance da plataforma e da sua comunidade de criadores, mantendo margem de manobra caso o cenário regulatório obrigue a ajustes.
Se o TikTok vier a ser banido ou obrigado a alterar profundamente a sua operação nos EUA, a parceria teria de ser adaptada. Possíveis cenários incluem menor alcance no mercado norte‑americano, foco reforçado em audiências internacionais ou maior dependência dos broadcasters da FIFA para distribuir conteúdos pensados para o TikTok. O acordo não deixaria de existir, mas perderia impacto no mercado mais valioso do torneio.
Um sinal da evolução dos media desportivos
Para além do contexto político, a parceria mostra como os detentores de direitos desportivos estão a repensar o papel das plataformas digitais. A FIFA reconhece que a atenção e a relevância cultural são hoje tão importantes como os direitos de transmissão tradicionais.
James Stafford, responsável global de conteúdos do TikTok, sublinha que o futebol tem crescido rapidamente na plataforma e que o Mundial 2026 será acompanhado por conteúdos exclusivos e maior acesso a criadores. Segundo o TikTok, os utilizadores que veem conteúdos desportivos na aplicação têm 42% mais probabilidade de assistir a jogos em direto.
O sucesso desta estratégia dependerá, em grande parte, do desfecho da questão regulatória nos EUA. Para já, o acordo representa uma aposta ambiciosa e um teste ao futuro do TikTok num dos mercados mais determinantes do Mundial.





