Com Yakuza: Like a Dragon, a máfia japonesa regressa mais perigosa e exótica do que nunca, na sequela que apresenta algumas diferenças significativas em relação aos seus antecessores. Mas antes de falarmos desta continuação, vale a pena referir a sua historia. Embora seja bastante mais popular no Japão do que no resto do mundo, a saga Yakuza já conta com outros sete jogos principais, e até variados spin-offs, na sua maioria, bastante bem-recebidos pelo público e pela crítica especializada. Quando os primeiros jogos nem sequer chegaram ao ocidente, é com satisfação que recebemos o lançamento deste Yakuza, que acabou por ser um dos mais rapidamente adaptados. Ainda assim, Yakuza: Like a Dragon chega-nos quase 11 meses depois de ter sido lançado por terras do sol nascente.

Sendo uma sequela, seria de esperar que pouco mudasse, o que de facto não é verdade! A oitava aventura regressa sem o habitual protagonista Kazuma Kiryu, apresenta-nos uma nova cidade como plano de fundo, e até um novo estilo de jogabilidade. Pautada por um certo sentido de humor oriental, a saga era facilmente reconhecida pelo seu estilo de luta beat ‘em up, uma característica que já não encontramos neste novo jogo. A Sega parece ter arriscado tudo, mas será que valeu a pena? Só nos resta uma maneira de saber. Equipados com o penteado mais exagerado que conseguimos e uma tatuagem a condizer, fomos explorar as ruas de Yokohama, e conhecer tudo sobre este novo Yakuza: Like a Dragon.

Yakuza: Like a Dragon

Yakuza: Like a Dragon

Esta é já a oitava aventura da saga Yakuza, e até apresenta um sub-nome ocidental muito curioso. No japão, a saga já era conhecida por ‘Ryū ga Gotoku’, algo que se pode traduzir para inglês como, exatamente, ‘Like a Dragon’, o que poderia representar uma espécie de regresso às origens, mas como vamos ver, neste caso é mais um recomeço. Já a palavra Yakuza, foi sempre o nome ocidental do jogo, provavelmente devido à fama da máfia japonesa. Por curiosidade, este é um nome que tem origem numa expressão que quer dizer algo como ‘inútil’, referindo-se ao estatuto de fora-da-lei dos seus membros.

Trocadilhos e curiosidades à parte, Yakuza: Like a Dragon tem muitas mais diferenças com os seus antecessores, e isso é notório logo pelo enredo. A oitava aventura da já longa série da Sega trocou de protagonista, para um tal de Ichiban Kasuga, um ex-presidiário que depois de alguns acontecimentos passados em Kamurocho (local dos jogos anteriores), decide mudar-se para a região de Yokohama, um local onde pretendia viver como… uma espécie de herói Yakuza. Se parece cliché, esperem por mais!

Afinal de contas, Ichiban já esteve preso há 18 anos, por um crime que não tinha cometido, com o objetivo de salvar da prisão um importante elemento do seu grupo, o clã Tojo. Ao regressar à liberdade, o nosso protagonista esperava ser recebido como um herói, mas a verdade é que ninguém se lembra dele, e o próprio clã estava destroçado. Desiludido, só lhe restou envolver-se nas intrigas e problemas da Yakuza, e talvez contentar-se em ser um ‘herói RPG’, um título que lhe podemos atribuir, ou não fosse esse o estilo de jogabilidade e o género preferido do protagonista.

Não podemos dizer que a história seja original, mas mesmo sendo previsível, acaba por cumprir com as expetativas. Não vamos revelar detalhes, mas podemos dizer que não existem momentos de decisão ou interatividade com a narrativa, algo é uma das tendências neste momento dentro do género. Pelo contrário, a campanha acaba por guiar o jogador, como de se um livro se tratasse, mas ainda assim, de forma competente o suficiente para entreter.

O Primeiro Herói

O nosso protagonista pode ser uma pessoa de pouca paciência, mas também não começa a dar socos e pontapés de qualquer maneira. Dizemos isto porque Like a Dragon estreia um tipo de luta bem distante do tradicional beat ‘em up que já estávamos habituados e que era característico da saga. O combate em tempo real deu lugar a um sistema por turnos muito semelhante a alguns dos mais populares RPGs. Agora, Ichiban recebe a ajuda de dois companheiros, num resultado final muito semelhante ao de Final Fantasy VII Remake (FF7) lançado este ano, um jogo que também tivemos a oportunidade de analisar. Com esta alteração, o jogo passa a ter um ritmo bem diferente do esperado, e um pouco mais assente na tática.

Confessamos que preferíamos o estilo mais direto dos antecessores, seja de um ponto de vista de preferência pessoal, ou por se identificar muito mais com a essência da própria Yakuza (ou seja, tudo à pancada!). A Máfia não é propriamente conhecida pela sua diplomacia ou tática, mais sim pela violência com que atua, e até FF7 Remake alterou a sua jogabilidade para poder misturar a luta em tempo real, com a habitual ação por turnos. Como tal, surpreende-nos ainda mais que o novo Yakuza tenha tomado a direção inversa, e tenha mudado o foco para um estilo de ação RPG por turnos e sem opção de troca. Mesmo sendo tradicional para o estilo japonês, na nossa opinião esta decisão pode retirar algum do fator de diversão.

Porrada da Antiga

Mesmo para quem seja menos fã da ação por turnos, a verdade que é a Sega soube implementar bem este estilo. O sistema de combate funciona claramente melhor do que o ambiente onde foi colocado, um detalhe que falaremos a seguir, e acaba por ser uma das boas surpresas de Yakuza: Like a Dragon. A diversidade das batalhas, e o facto de os inimigos não ficarem imóveis à espera do próximo ataque, são detalhes que valorizam muito o jogo. Por este motivo, é notório que a troca não tirou todo o dinamismo às lutas, um feito já por si impressionante, mas o estilo mais tático pode ser menos divertido quando comparado com os seus antecessores. Salvam-se as explosões hilariantes, poderes magnificos e habilidades fora do comum! Cada luta é sempre um movimento de extrema ação e ridiculo humor.

O que acaba por ser mais divertido é estar constantemente a enfrentar inimigos novos, especialmente porque as ruas estão repletas de adversários, e mesmo que sejam fracos ao inicio, mais tarde são substituídos por bandidos mais evoluídos, para nunca ficarmos entediados. A dinâmica e a evolução de personagens são outro dos aspetos que acabam por valorizar também a jogabilidade. Se ainda assim estivermos com menos paciência, podemos sempre ativar uma opção de combate semiautomático, mesmo que o ocasional bloqueio manual ainda tenha de ser utilizado.

Podemos referir algumas dicas sobre o combate de Like a Dragon. Como todos os personagens estão constantemente em movimento, devemos ter atenção ao atacar com dano por área. Também pode ser uma vantagem atacar rapidamente após o início de uma batalha, quando todos os inimigos ainda estão próximos. Kasuga também pode pegar em itens para um ataque mais poderoso, e temos de ter em mente que os adversários às vezes também bloqueiam os nossos movimentos. Tudo isto dá uma grande dinâmica às lutas, e reflete com sucesso o caos subtil das batalhas anteriores em tempo real.

Começar do Zero

Quando Ichiban Kasuga chega a Yokohama, mais precisamente a Isezaki Ijincho (uma área que tem como inspiração o verdadeiro bairro comercial de Isezakicho), o nosso protagonista não tem dinheiro, nem casa, e como tal, acaba entre os sem-abrigo. Por este motivo, muitas das interações do jogo giram em torno da sua sobrevivência, e da necessidade que tem em arranjar comida, abrigo e/ou dinheiro. Este olhar sobre um dos extratos da sociedade que mais vezes é negligenciado, faz bem à história, e acaba por justificar outras ações. Ichiban procura dinheiro e objetos perdidos nas maquinas de venda automática, e até no lixo, e chega até a colecionar latas numa espécie de minijogo. Infelizmente, é demasiado fácil acumular largas somas de dinheiro em Yakuza: Like a Dragon, e aí perdemos grande parte do realismo ou da mensagem. Mesmo o risco de perdermos uma batalha, e sermos obrigados a perder metade da quantia que transportamos, é facilmente resolvido, bastando para isso depositar regularmente o dinheiro no banco. Se pelo menos a vida fosse assim tão facilitada…

Tirando estes ‘detalhes’, basicamente nada se alterou no universo de Yakuza. Continuamos a poder bater em criminosos de baixo nível, fazer trabalhos paralelos, experimentar minijogos, enquanto passamos a história principal. Acaba por ser semelhante a jogos como GTA, ou o seu ‘primo’ asiático Sleeping Dogs, no ponto de vista que temos uma cidade à nossa disposição, e imensas atividades extra, que muitas vezes são mais divertidas que a própria campanha. Em compensação, podemos sempre fazer algo mais subtil, como ir a uma corrida de karting com uma bazuca na mão, uma função que claramente falta aos jogos da concorrência!

Simplesmente… Mais

Embora exista muita coisa para fazer, infelizmente nem todas as atividades são excitantes ou originais. Temos as habituais missões repetitivas de percorrer meia cidade para recolher um objeto e regressar à origem, apenas para termos uma pequena mensagem no ecrã a confirmar o sucesso, e logo tudo se repete. Chegamos ao ponto de ter de recolher insetos para completar missões secundarias, um processo que nos obriga a andar aos círculos por vários minutos, apenas para quase nada. A Sega sugere uma solução para este problema, que passa por comprarmos com microtransações todos os elementos necessários para completar estas missões. Uma sugestão pouco original na nossa opinião.

Também não ajuda que o mapa seja bem maior do que antes, e embora isso devesse ser algo bom, neste caso é um pau de dois bicos. Se por um lado, algumas áreas são incrivelmente detalhadas e vivas, outras secções, principalmente a norte do mapa, são demasiado vazias e desinspiradas. Alias, mesmo como um todo, Like a Dragon não surpreende a nível visual, o que não significa que seja mau, mas também não é o melhor que já vimos. O jogo até corre a 60fps nas novas consolas, no entanto, com poucas ou nenhumas diferenças para as consolas da geração anterior, a 30fps.

Role-Play Cómico

Não podíamos deixar de referir o (nem sempre subtil) sentido de humor da saga, algo também está presente neste jogo. Em Yakuza: Like a Dragon o humor passa principalmente pelas referências aos universos RPG, e a algumas piadas tipicamente orientais. É engraçado que os personagens tenham barras de mana para as suas habilidades, e que até os inimigos apresentem os olhos vermelhos, tamanhos exagerados e armas estranhas, como se fossem monstros típicos de qualquer jogo RPG de fantasia. Ichiban é tão fã do género, que a sua própria visão da realidade já foi alterada, e só nos podemos rir com isso. Por outro lado, a jogabilidade acaba por não se inspirar muito no género RPG. Para além do estilo por turnos, e algumas habilidades/itens, não existem outros detalhes clássicos do género, algo que talvez completasse ainda mais a experiência. O próprio sistema de evolução e de recolha de equipamento deixa um pouco a desejar, o que, em conjunto com algumas outras falhas, borram uma pintura que podia ter sido bem mais inspirada.

Veredito

Yakuza: Like a Dragon acaba por ser um carrocel de emoções, tal como já eram as batalhas dos seus antecessores. Se a surpreendente troca do tempo real para uma ação por turnos poderia ser uma das suas fragilidades, a verdade é que o sistema foi melhor implementado do que esperávamos, e é mesmo um dos seus trunfos deste lançamento. Por outro lado, os visuais, apesar de satisfatórios, não surpreendem. Mas as supostas contradições não se ficam por aqui.

Ichiban Kasuga é o novo protagonista, e como tal, podia ser uma das fragilidades da historia, mas também aqui a tendência não se verificou. A sua evolução como personagem, e até a dos seus companheiros de aventura, é um dos pontos fortes do jogo, uma surpresa para um estreante na saga. Já as tarefas, que deviam ser em tudo semelhantes às dos seus antecessores, parecem ser ainda mais repetitivas em Like a Dragon, e nem vamos voltar a falar da insistência nas microtransações.

Com um universo de jogo que varia entre o muito vivo e o parado, alguns dos seus problemas acabam por impedir uma avaliação mais alta. Conseguindo ser ao mesmo tempo diferente e igual aos outros jogos da saga, Yakuza: Like a Dragon pode agradar a antigos e novos jogadores, mas claramente não agradará a todos ao mesmo tempo.

[Análise baseada na versão de Yakuza: Like a Dragon para PlayStation 4, gentilmente cedida pela playandgame.pt]

Positivo
Ação por turnos bem conseguida.
Personagens carismáticos que evoluem ao longo da história.
Muitas atividades e minijogos para fazer.
Enorme mapa de mundo aberto.
Sentido de humor característico da saga.
Negativo
Qualidade dos visuais varia ao longo do jogo.
Demasiada insistência nas microtransações.
Atividades tornam-se rapidamente repetitivas.
A narrativa é interessante, mas pouco original e sem momentos de decisão.
Modo multijogador inexistente.
85
Muito Bom
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