Com a importante missão de salvar o mundo de uma poderosa maldição, uma mestre arqueira voa pela floresta com a ajuda da sua águia mágica. Esta é a proposta de The Pathless, uma aventura misteriosa que vai colocar à prova a amizade da nossa protagonista Hunter, com a sua fiel águia de companhia. Obra dos estúdios da Giant Squid (Abzû, 2016) e publicado pela Annapurna Interactive, este é um jogo independente que chegou este novembro em formato digital à PlayStation 4, PlayStation 5, e também ao PC. Agora com um lançamento em formato físico, para as mesmas plataformas, chegou a altura de testarmos na PS5 esta curiosa aventura.

Com uma proposta diferente do habitual, The Pathless apresenta-nos uma jogabilidade fortemente marcada pela dinâmica gerada entre os seus dois protagonistas, e onde os visuais simplicistas e as cores sóbrias, apenas tentam complementar uma experiência geral que pretende ser tão relaxante quanto didática. Com um preço mais reduzido do que outras ofertas no mercado, será esta uma aposta de sucesso? Ou será que a aventura se perde com a aparente simplicidade que apresenta? Para perceber melhor o universo de The Pathless, segurámos a aljava ao ombro e aventurámo-nos na floresta com a nossa águia, a companheira de viagem a quem prometemos não falhar uma única flecha!

The Pathless

The Pathless

Com origem numa misteriosa ilha, uma estranha escuridão paira sobre o mundo, e apenas a nossa mestre arqueira Hunter o pode salvar da poderosa maldição. Felizmente, não estará sozinha nesta importante tarefa, uma vez que terá ao seu lado uma fiel águia dotada de poderes que crescem ao longo desta aventura. Para desenvolvê-los, é necessário recolher vários cristais espalhados pelo mapa de jogo para os depositarmos num lugar especial e assim recuperar a luz que fortalece os espíritos deste mundo de fantasia.

É nesta ilha misteriosa que se inicia a nossa aventura, um cenário desenhado ao estilo de mundo aberto, num jogo onde não existem mini-mapas, onde a nossa protagonista terá de encontrar os objetivos utilizando apenas a sua “Spirit Vision”. Também a própria movimentação pela ilha é feita de uma forma original que dá corpo a toda a fantasia e magia envolventes.

Voar com Estilo

Conforme a nossa Mestre Arqueira vai destruindo os perigosos talismãs que causam a maldição, a sua barra de energia vai enchendo, sendo este o ‘combustível’ para as suas elegantes corridas. Para obstáculos mais exigentes, dependemos quase inteiramente da nossa águia, que nos permite voar por alguns segundos, e mesmo que ao longo do tempo vá perdendo altitude, pode sempre bater as asas para um pequeno impulso extra.

Como já referimos, a jogabilidade é algo invulgar, mas temos de admitir que é bastante divertida. A dinâmica entre os nossos dois personagens é o grande foco do jogo, tanto na mecânica de movimento, como na própria trama, algo que explicaremos mais à frente. Esta sintonia quase perfeita é ainda reforçada pela excelente banda sonora de Austin Wintory (Assassin’s Creed Syndicate, Erica, abzû), e pelos visuais que, embora simples, acabam por funcionar melhor do que esperávamos.

Aura Mística

Desde cedo, é notória a forte inspiração artística do estúdio, que reforça uma certa mística tanto pela história, como no design e arquitetura do mapa, e não se deixem enganar pela aparente simplicidade dos visuais, porque The Pathless consegue ser um jogo muito bonito. Reparamos nas referências ao estilo gótico das catedrais, os inúmeros totens tribais e os vários templos que embelezam a ilha. A natureza também está bem representada, seja nas cascatas, praias e vales do mapa, e nos escassos animais que podem ser vistos aqui e ali.

Esta aparência quase idílica só é interrompida pela bem mais agitada jogabilidade composta por combinações de voo e arco, que acelera cada vez que acertamos nos alvos brilhantes. A sucessão de tiros certeiros leva a corridas frenéticas pela floresta, numa experiência final bastante agradável. Claro que tudo isto só é possível graças à nossa águia. O nosso parceiro de viagem também se magoa, e tem medo das estátuas amaldiçoadas, mas felizmente podemos sempre confortá-la com uma carícia e curá-la dos seus ferimentos, e o facto de ela nos ser tão fiel, acompanhando-nos por todo o mapa, apenas reforça a dinâmica gerada.

The Pathless também apresenta elementos de furtividade, mas que neste caso não passam pela camuflagem, mas sim por disparar o arco à distancia e escondidos pela vegetação. Para facilitar todo o processo, temos flechas infinitas à nossa disposição, e a mira é automática, no entanto, apenas os tiros certeiros enchem-nos a barra de energia, e apenas com ela podemos continuar a correr. O sistema de mira não é perfeito, e por vezes salta um pouco do alvo, mas apenas muito raramente. Para um jogo aparentemente tão simples, e que até pode ser considerado um jogo Indie, ficámos surpreendidos pela velocidade e qualidade da jogabilidade.

Ilha Mistério

Embora importantes, as rápidas acrobacias aéreas e no solo, são apenas uma das facetas deste jogo. The Pathless é uma aventura épica de ação cheio de quebra-cabeças que recompensam a exploração lenta. Nas paisagens pitorescas, que passam de floresta a estepe consoante a região visitada, escondem-se segredos por todo o lado, desde a velha fortaleza com inscrições, ao pitoresco círculo de cogumelos. As runas brilhantes, os casacos e chapéus dos mortos, alguns elementos até fazem lembrar Journey lançado em 2012.

Neste jogo o mundo dos vivos e dos mortos acabam por se sobrepor. Podemos mudar para este mundo espiritual com o pressionar de um botão, para passar por portas trancadas ou ver coisas que de outra forma, estariam escondidas. Os locais com brilho vermelho são zonas de interesse, mas antes que possamos trazer uma destas zonas de volta ao nosso mundo, precisamos de encontrar artefactos especiais, muitos dos quais estão localizados em templos, ruínas ou cavernas próximas. Se conseguirmos reparar todas as torres numa das cinco regiões, podemos então enfrentar os seus respetivos chefes finais (Bosses).

Também aqui The Pathless surpreendeu-nos! As batalhas com os Bosses ou Colossos são outro dos destaques deste jogo. Com lutas bem inspiradas durante as várias fases da batalha, onde temos de usar tudo o que aprendemos em confrontos anteriores de alta velocidade, podemos acertar nos pontos fracos do inimigo ou esquivarmo-nos de ataques com a ajuda da nossa águia. É muito motivador que todos os Colossos tenham uma pré-história mítica e que continuem a desempenhem um papel mesmo após terem sido derrotados. O círculo narrativo termina, mas surgem sempre outras surpresas para descobrir.

Todas estas sensações são aumentadas pelos visuais, que mais uma vez se adequam à experiência. Alguns destes exemplos são as nuvens sombrias que escondem os inimigos, prontos para atacar a qualquer momento, e o ar carregado do céu que constantemente nos relembra da maldição pendente. Como ponto negativo, apenas podemos referir a longevidade, uma vez que este não é um jogo com tanto para fazer como gostaríamos, ou com um enorme fator de repetibilidade. A ‘campanha’ terá apenas cerca de 10 horas de jogo, o que coloca The Pathless num patamar de jogo muito curto.

Quebra-cabeças

O design dos puzzles também foi bem conseguido, mesmo que geralmente seja bastante simples. Às vezes, apenas temos de manter os olhos abertos para descobrir pequenas entradas ou fendas escondidas, ou ações simples como acender tochas ou ativar colunas de luz na ordem correta. Além disso, existe a imitação de sons, caminhar por portas fantasmas ou até mesmo corridas de velocidade atrás de borboletas.

Os desafios são variados e quase sempre interessantes, mas o arco e a águia são os instrumentos que os tornam realmente divertidos para os fãs de quebra-cabeças. A águia pode, por exemplo, pegar em pesos, e colocá-los em locais ondem ativem um interruptor, ou mover objetos, de modo que, ao rolarem para trás acionem mecanismos como a rotação de pequenos pilares com orifícios, pelos quais a nossa arqueira terá de acertar em tempo útil.

Mais Perícia

O desenvolvimento subtil das habilidades também é um fator de motivação. Exemplo disso é o número de vezes que a nossa águia pode bater as asas. Relembro que esta função é importante para nos manter no ar e ganhar altitude. Quanto mais vezes a águia bater as asas, mais terreno conseguimos percorrer e mais alto podemos chegar. Se no inicio, a águia apenas pode bater as asas uma vez, conforme formos evoluindo (derrotar Bosses, pequenos quebra-cabeças ou testes de habilidade), podemos passar a usar as asas com mais frequência. Portanto, alguns locais mais altos podem parecer inacessíveis ao inicio, mas com o decorrer do jogo, podemos chegar lá mais facilmente do que pensávamos.

A pensar nisso mesmo, estúdio fez um bom trabalho a definir as estruturas do jogo, e nota-se um cuidado especial a pensar na verticalidade da jogabilidade, que está bem adaptada. Existem vistas muito interessantes de alturas vertiginosas, e as rotas de voo passam por locais exóticos, no que culmina num mítico mundo aberto. Com os seus Colossos e a concentração no essencial, The Pathless despertou-nos algumas lembranças a Shadow of the Colossus (2005), um jogo ao qual o estúdio poderá ter retirado alguma inspiração, sem prejuízo da aventura que criou.

Não podíamos terminar sem referir que The Pathless corre sem problemas na PS5, embora não retire todo o potencial visual da nova geração de consolas, nem aproveite grande parte das vantagens do novo comando DualSense. Existe algum feedback háptico do áudio, mas uma vez que o sistema de tiro não simula o de um arqueiro real, não havia forma de utilizar os gatilhos adaptativos ou a sua capacidade de resistência para esta função. Seria interessante se pudéssemos perceber a intensidade do tiro com o comando, mas tal não é significativo e nem sequer se verifica noutras plataformas que não têm a tecnologia háptica.

Veredito

Com uma jogabilidade rápida, visuais simples mas inspiradores, uma banda sonora de qualidade e excelentes puzzles, The Pathless foi capaz de nos surpreender, e mesmo com notórias inspirações retiradas de diversos jogos, a Giant Squid conseguiu fazer o mais difícil – criar uma nova aventura com um estilo muito próprio. A dinâmica entre o tiro com arco da protagonista, e o voo da sua águia mágica, são a base da jogabilidade, numa combinação que flui muito bem com os visuais míticos e a inspiradora paisagem que apresenta. A originalidade também esteve presente nos puzzles, inimigos, design artístico e sonoro, todos eles áreas a merecerem elogios.

Mesmo assim, existem pequenos problemas que não podemos ignorar. As raras falhas na mira automática, e o facto de o estúdio não ter conseguido aproveitar todo o potencial gráfico e háptico da nova PS5, são detalhes que o impedem de voar ainda mais alto.

Este é um jogo indie com uma qualidade inesperada, capaz de nos transportar para um mundo místico de magia e encantamento. Com uma mensagem que nos transmite o valor da amizade, as horas passam a correr enquanto vagueamos pelas paisagens deslumbrantes na pele da nossa heroína, enquanto acompanhados da sua fiel águia.

Focado no essencial, The Pathless é um jogo de ação-aventura que apela a todas as sensações, seja pela sua original jogabilidade, por uma banda sonora épica ou a incrível inspiração artística.

[Análise baseada na versão de The Pathless para a PlayStation 5, gentilmente cedida pela playandgame.pt]

Positivo
Jogabilidade original com fator de verticalidade.
Visuais simples, mas inspirados e com boa direção artística.
Bons puzzles com muita variedade.
Sistema de combate rápido e bem ambientado pela banda sonora.
Narrativa baseada em elementos mitológicos.
Negativo
Grafismo não utiliza todo o potencial da PS5.
Pequenos erros na mira e no sistema de salto.
Pouca utilização das novas funções hápticas.
Poderá tornar-se algo repetitivo, com uma campanha curta.
88
Muito Bom
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