Análise: Resident Evil 3 (2020)

0

 

Há poucos anos atrás talvez ninguém esperasse um remake de Resident Evil 3 (RE3), e muito menos um provável remake de quase toda a saga RE que já é uma das mais longas da história dos videojogos. Se os zombies nunca morrem, ou quase nunca (parecem voltar sempre a erguer-se quando menos esperamos), então este remake de Resident Evil 3 enquadra-se na mesma classificação. Alavancado pelo recente sucesso do anterior remake de Resident Evil 2, a verdade é que ele está mesmo aí, e mais vivo do que nunca!

Embora não seja tão popular como o seu antecessor, o Resident Evil 3 original terá sempre um lugar especial nas minhas memórias, uma vez que foi a minha primeira experiência na saga, no já longínquo ano de 1999. Por muito nostálgico que me possa sentir, isto não significa que este remake seja automaticamente uma obra prima. Será que o novo RE3 acrescenta algo mais do que apenas uns visuais renovados? Resident Evil 3 é um remake? Ou um remastered?

Resident Evil 3
Resident Evil 3 Remake e original. Imagem: DR

Ambientado na mesma janela temporal em que Leon S. Kennedy e Claire Redfield ainda procuravam uma saída da cidade em Resident Evil 2, a aventura de Jill Valentine em Resident Evil 3 mostra-nos uma Racoon City completamente tomada pelos zombies, e também pelo gigante Nemesis! Aliás, ele é tão importante que faz mesmo parte do nome original, Resident Evil 3: Nemesis.

Sendo este já o segundo remake da saga em tão curto espaço de tempo, será que foi trabalhado o suficiente para nos surpreender? E o modo Resistance justifica uma instalação em separado? Para responder a esta e outras questões, tivemos de arriscar o pescoço nas perigosas ruas infestadas de mortos vivos de Racoon City, mas só depois de esperar mais de 15 horas de download! Com todas as instalações terminadas, (RE)iniciámos a aventura.

Resident Evil 3

Resident Evil 3

Tratando-se de um remake, já sabíamos que a aventura não iria ser nova. Podemos dizer o mesmo do motor de jogo. Exatamente por isso, e pelo menos do ponto de vista técnico, Resident Evil 3 beneficia largamente de todo o trabalho realizado pela Capcom para o remake de Resident Evil 2 (2019). O motor proprietário RE Engine garante um grafismo muito interessante, taxas de atualização de 60fps, e um bom desempenho em todas as plataformas. Embora tenhamos notado pequenos problemas de iluminação na nossa versão para a PS4, principalmente na secção inicial, este novo RE3 vem acompanhado de alguns cenários notáveis, que foram muito bem ambientados.

Talvez seja porque regressamos a alguns lugares icónicos na série, como a esquadra da polícia ou o hospital de Racoon City, que a combinação de luzes e sons utlizada parecem logo misturar-se na perfeição. Especialmente nos momentos mais dramáticos, o novo Resident Evil 3 consegue transmitir-nos as emoções que, de alguma forma, já sentimos com os gráficos inferiores do original. A atmosfera de pânico combina com os cenários escuros e de destruição, que apenas são perturbados com algumas luzes citadinas mais intensas, e os constantes ataques de zombies. Todo o ambiente é acompanhado por um som ambiente bem misturado, efeitos sonoros nítidos e uma banda sonora bastante discreta, mas envolvente, que aparece especialmente nos momentos mais dramáticos.

Regresso às Origens

Não foi só visualmente que Resident Evil 3 nos pareceu familiar. Também a jogabilidade de Jill permaneceu praticamente inalterada desde o lançamento do original em 1999. É verdade que se costuma dizer que “se não está partido, não se mexe”, mas para um jogo que adiciona novos visuais e alguma velocidade extra aos inimigos, talvez esperássemos novidades no movimento dos personagens principais. Afinal de contas, a Jill não faz nada novo que já não fizesse há 20 anos atrás.

Felizmente existem outras opções de ataque para compensar. Os tiros direcionados a geradores elétricos podem atordoar os inimigos, e nesta situação até o “todo-poderoso” Nemesis tem de abrandar por uns segundos. Além disso, existem também fontes explosivas, sob a forma de bidões de gasolina espalhados por toda a parte, e que com apenas um tiro pode colocar toda uma área em chamas, eliminando grandes grupos de zombies.

Por estes e outros motivos, Resident Evil 3 tem muito mais ação do que o seu antecessor, mas talvez seja menos emocionante e assustador. Além do maior número de oponentes, os vários encontros com Nemesis também contribuem para o facto de quase não termos tempo para respirar. Por outro lado, e especialmente quando jogamos no papel do agente Carlos Oliveira, que podemos controlar em alguns momentos, existem demasiadas cutscenes, um elemento que quebra ainda mais a emoção. Para complementar a experiência, o jogo ainda oferece pequenos quebra-cabeças, mas em número reduzido.

Memórias Zombie

Com cerca de oito horas no nível médio de dificuldade, a campanha acaba por ser significativamente mais curta do que a do seu antecessor, principalmente devido à falta de cenários finais alternativos e à ausência de decisões durante o jogo. Mesmo a nova e maior área da cidade, e a redesenhada introdução, não foram capazes de alongar muito mais o jogo. Como se isto não bastasse, as motivações para repetir a campanha são também muito poucas, e não vão além de algumas figuras escondidas e desafios de velocidade. De qualquer das formas, as poucas horas de história são muito bem passadas, e sempre sem pausas.

As pequenas “boss fights” com o Nemesis podem não ser muito variadas no seu propósito, mas não seguem sempre o mesmo padrão. Como resultado, o vilão pode esconder algumas surpresas, e talvez seja o único elemento que vale a pena repetir, nem que seja pelo desafio. De um ponto de vista puramente dramático, o “jogo do gato e do rato” contra este inimigo quase omnipotente, é uma mais valia para o jogo, porque cria alguns momentos de tensão onde nos sentimos completamente inúteis perante esta ameaça.

Receita Famosa

Além dos detalhes que já referimos, o novo Resident Evil 3 ainda mantém os elementos típicos de qualquer outro jogo da saga. Existem as habituais ervas curativas, munição para criar e colecionar, e um inventário minúsculo para gerir. Este último continua a ser tão irritante como no original, e uma vez que não existe um sistema de organização automática de espaço, tudo fica mais difícil. Também não podemos utilizar objetos de cura assim que os recolhemos, o que nos faria poupar alguns segundos e espaço no inventário.

Felizmente, o espaço pode ser expandido com bolsas extra no cinto e, é claro, todos os objetos ainda podem ser armazenados em caixas bem distribuídas pelo mapa. Para gravar o jogo, podemos contar com a tradicional máquina de escrever. Desta vez, também foi adicionada a gravação automática, uma facilidade que, teoricamente, permite-nos abandonar o método antigo de gravação.

Outra das novidades é novo mapa, que não serve apenas para orientação, mas também marca os objetos próximos, e até indica se ainda vale a pena explorar uma determinada área, na esperança de encontrar mais equipamentos úteis. Estes incluem, por exemplo, várias atualizações que melhoram as nossas armas, como o alcance, o poder de penetração ou o tamanho do carregador. Como sempre, além da faca de combate, da pistola padrão e das granadas, armas mais poderosas como a espingarda, a magnum e o poderoso lança granadas, chegam mais tarde ao arsenal disponível.

Embora tenha sofrido uma pequena redução no gore, pelo menos quando comparado ao seu antecessor, este remake de Resident Evil 3 ainda mostra todo o sangue e membros decepados que nos lembram o original. Os zombies ainda são algo diversificados entre si, com variações na velocidade e no aspeto, incluindo algumas novas variantes. Não muito precisas são as caixas de tiro ou hitboxes, que algumas vezes parecem ignorar completamente o local onde a bala acerta. Ainda assim, existem momentos em que o sistema parece funcionar e, ao acertarmos na cabeça dos inimigos, esta explode indicando a ameaça foi eliminada.

Resident Evil Resistance

Os modos online assimétricos parecem estar na moda, e até o recente Doom Eternal aplicou esta fórmula. Com o novo Resident Evil Resistance, a Capcom faz também a sua própria tentativa de adicionar uma componente multijogador a um jogo que no passado não a teria. Logo à partida, a ideia parece ter algum potencial, mas só isso não chega.

Em Resistance quatro jogadores fazem o papel de sobreviventes (survivors), numa situação em que terão de escapar das instalações de teste da Umbrella Corporation. Todo o processo exige trabalho de equipa e ações rápidas, numa frenética corrida contrarrelógio. Um mentor (mastermind), que também é controlado por um jogador real, tenta impedir a fuga destes sobreviventes, utilizando armadilhas, e colocando armas e inimigos no meio do caminho. Às vezes ele mesmo assume o controle direto dos monstros, uma possibilidade que adiciona mais emoção a esta perseguição.

Mesmo que a ideia seja muito boa no papel, na prática apresenta alguns problemas. Os mentores são demasiado poderosos, os limites de tempo muito apertados, e as cartas de habilidades disponíveis são pouco variadas. Para nos facilitar o processo, existem no jogo os boosters que aceleram o acesso a melhor equipamento. Estes boosters também podem ser adquiridos por microtransações. Tanto potencial desperdiçado!

Jogo de Equipa

Mesmo com os seus defeitos, o novo Resident Evil Resistance é um modo online muito interessante. Os quatro sobreviventes têm habilidades especiais individuais que se podem complementar perfeitamente. Entre as escolhas, existem especialistas em áreas distintas, como o combate corpo a corpo, e hackers que podem atrapalhar o sistema de vigilância. Se jogarmos de forma inteligente, podemos até usar algumas das armadilhas do mastermind a nosso favor. Com quatro mentores diferentes disponíveis para escolher, cada um deles esconde alguns truques únicos, como o assustador Mr X, que também é um dos monstros controláveis. No começo só temos acesso a Annette Birkin, mas conforme formos evoluindo de nível podemos passar a utilizar os restantes.

O modo está separado por três seções, nas quais é preciso encontrar objetos-chave, procurar e matar um zombie especial ou destruir dispositivos. Objetos como ervas de cura e munição podem ser encontrados no mapa, ou também numa caixa de armazenamento comum, onde podemos comprar equipamento com uma espécie de créditos Umbrella. Os adversários e, acima de tudo, o prazo apertado, são suficientes para criar uma experiência interessante e que nos desafia a alcançar a saída a tempo. Para complicar ainda mais, os sobreviventes recebem segundos extras valiosos por todos os inimigos que derrotam, mas, por outro lado, o tempo é dolorosamente reduzido a cada ataque bem-sucedido de um dos monstros.

Para comunicarmos com os outros jogadores podemos utilizar o microfone ou as mensagens pré-gravadas do próprio jogo. Infelizmente, e uma vez que são necessários cinco jogadores, teria sido interessante um suporte crossplay entre todas as plataformas, ou até um modo em lan, mas isso não aconteceu. O máximo que podemos fazer é configurar uma sessão privada e bloquear o acesso com uma password. No entanto, a alocação de pontos (RP) em jogos privados é significativamente reduzida, de modo a penalizar quem tentasse realizar jogos combinados para subir mais rapidamente o seu nível de experiência. Uma limitação que, infelizmente, é muito necessária, ou não fosse tão natural no Ser Humano procurar a forma mais fácil de se sobrevalorizar.

Como já referimos, este modo Resistance é de facto muito interessante, mas infelizmente funciona melhor ao inico do que mais tarde. Se jogado entre amigos, uma boa cooperação pode permitir jogos muito interessantes, e mesmo com estranhos, uma boa equipa pode fazer dos duelos um desafio. No entanto, e numa componente multijogador puramente comum, parece não passar apenas de uma adição ao jogo principal e quase supérfluo, que só por si não impressiona.

Veredito

Um pouco como em todos os remakes, o novo Resident Evil 3 mostra-se mais surpreendente a nível visual do que do ponto de vista técnico. A jogabilidade que já brilhava em 1999, continua a funcionar nos dias de hoje, mas sem grandes adições de relevo que a tornem uma experiência completamente nova. Com muito menos quebra-cabeças do que o seu antecessor, ainda assim apresenta muitas das suas antigas virtudes. Exemplo disso é o bom design do mapa, sempre com áreas muito bem limitadas, e uma direção artística que confere mudanças inteligentes de ritmo de jogo.

O modo Resistance foi uma agradável, mas incompleta surpresa. Além de limitado, apresenta alguns problemas que o impedem de brilhar. Ficamos com a ideia que podia ter funcionado com um maior trabalho de desenvolvimento e menor foco nas microtransações. De um modo geral, parece-nos que que o estúdio devia ter escolhido apenas um dos projetos, e focado toda a sua atenção em melhorá-lo, evitando lançar um produto que parece inacabado.

Com um maior foco na ação, Resident Evil 3 ainda apresenta alguns momentos dramáticos que aproveitam largamente os novos visuais, a iluminação e o som 3d. De qualquer forma, foi interessante e divertido reviver uma curta, mas excitante campanha, que mesmo só apresentando cerca de oito horas de jogo, recompensa-nos com muito poucas pausas, e uma ação literalmente contagiante. Não inovando, nem surpreendendo, o novo Resident Evil 3 mostra-se uma homenagem meritória, embora muito curta, de uma fórmula antiga e bem-sucedida da Capcom.

Esta análise foi baseada na versão do jogo para PlayStation 4. Uma cópia foi gentilmente cedida pela Ecoplay.

Positivo
Novos visuais e iluminação refrescam a experiência.
Ação sem paragens e bom desenho de mapa.
Nova cena de abertura bem conseguida.
Possibilidade de melhorar inventário e armas.
Mapa melhorado e com novas funções muito úteis.
Negativo
Não inova, nem surpreende, mesmo como remake.
Modo Resistance parece incompleto e apresenta algumas falhas.
Campanha muito pequena e sem opções de escolha.
84
Muito Bom
avatar
500