Análise: Maneater

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Com a cana pronta, o isco perfeito e uma boa dose de paciência, e estamos prontos para uma manhã de pescaria nas calmas águas da baía de Crawfish. Mas, será mesmo assim? Claro que não podia ser tão simples. Meaneater sugere uma alternativa, diferente das clássicas e monótonas sessões de pesca. Neste título desenvolvido pela Tripwire Interactive, somos convidados a encarnar o personagem de um tubarão bebé, evolui-lo e, quando for grande e forte, vingar a morte da mãe, que morreu às mãos do excêntrico caçador de tubarões Pierre “Scaly Pete” LeBlanc.

A Tripwire Interactive é uma editora americana, fundada em 2005 pela mesma equipa que construiu o mod Red Orchestra: Combined Arms para o Unreal Tournament 2004. Este mod resultou da participação da equipa num concurso da NVidia, Make Something Unreal, tendo conquistado o primeiro prémio. Killing Floor, também este inicialmente um mod para Unreal Tournament, foi o segundo trabalho do, já nesta altura, estúdio de desenvolvimento, tendo resultado num jogo independente, com duas sequelas. Após um lançamento menos positivo de uma versão para o VR, a aposta agora em Meaneater parece ser uma tentativa de experimentar algo diferente.

Meaneater

Maneater é um RPG violento, incomum e difícil de compreender. Difícil, na medida em não consigo entender qual a mensagem que o jogo tenta transmitir, quanto ao objetivo é simples. Em Maneater, o jogador devora humanos, persegue presas, destrói embarcações, causa o caos e o pânico, e supera todos os predadores. Mas o que teria levado o estúdio americano a pensar desenvolver um jogo assim tão atípico? Bom, depois de Goat Simulator, de Coffee Stain Studios, onde o objetivo é inventar as formas mais horrendas de eliminar cabras, ou a saga Postal, de Running With Scissors, onde a violência gratuita, abuso de estereótipos e humor negro predominam no jogo, então porque motivo Maneater não poderia existir?

Todos estes títulos têm algo em comum. Não falo apenas da violência, nem de serem todos desenvolvidos com recurso ao mesmo motor Unreal Engine, mas, principalmente, pela excelente aceitação dos jogadores para este tipo de jogo. Postal, onde o jogador urina em cima de um cadáver, enquanto incendeia uma mulher que foge em chamas, é hoje considerado um jogo perfeito, com avaliações 10/10. Talvez isto queira dizer muito da sociedade na qual hoje vivemos.

A História de um Tubarão

A nossa aventura como carrasco de tudo o que é vivo no universo de Maneater, começa, imagine-se, com a morte da mãe do protagonista. Um tubarão cabeça chata que chegou à bela baía de Crawfish, com um único objetivo – devorar os ingénuos banhistas que ignoram a presença deste predador implacável, mesmo após o companheiro do lado ter sido desmembrado numa sucessão de acrobacias aéreas e ferozes dentadas ao ritmo do nosso pressionar do botão. Ahh, que maravilha! Corpos que jorram sangue, pessoas que gritam em pânico enquanto esbracejam sem sair do lugar, e uma mancha vermelha que flutua à nossa volta!

Bom, nem tudo é assim tão terrível em Maneater. O tutorial introdutório está bem conseguido. Explica-nos a jogabilidade e cada objetivo, além de algumas dicas importantes. É mais do que um tutorial. É um guia que nos acompanha durante as primeiras missões, no mapa aberto de Crawfish, até ao fatídico momento em que somos capturados pelo caçador de tubarões mais famoso do momento “Scaly Pete”.

Maneater
Maneater. Imagem: DR

Pierre “Scaly Pete” LeBlanc é o caçador de tubarões mais experiente das redondezas. Com o seu filho Kyle, participa num reality show onde conta as suas aventuras às câmaras do canal Port Clovis. A equipa de filmagem faz parte da tripulação do Cajun Queen, o barco do veterano capitão, obstinado em apanhá-los a todos! Não falo dos Pokémons. Scaly Pete quer apanhar todos os tubarões que existem no planeta, ou, vá, nos mares! Com dois braços enormes, completamente desproporcionais em relação ao resto do corpo, não duvido que o consiga! Com dois braços, mas só com uma mão, já que a outra perdeu-a quando o bebé tubarão fez das suas após ter sido arrancado do ventre da mãe à facada! Que ingrato!! Scaly Pete cortou a pele da pequena cria, antes de o atirar à água. “Quero lembrar-me dele mais tarde, para o caçar quando for maior!”, afirmou. Um tubarão bebé não representa um verdadeiro desafio, e o capitão é um corajoso caçador que prefere esperar que o nosso personagem cresça e se torne mais forte. Vamos fazer-lhe a vontade? Esta é a premissa de Maneater. Fazer crescer o nosso tubarão, torná-lo no predador alfa mais poderoso dos oceanos e vingar a morte da sua mãe.

Felizmente o modo de gravação do jogo é automático, deixando-nos livres para imergir no jogo sem preocupações. Existem ainda três slots disponíveis que permitem recomeçar o jogo em diferentes alturas e por diferentes pessoas.

Já o idioma do jogo, está associado ao idioma escolhido na consola, sem possibilidade de alterar dentro do jogo. No meu caso, o jogo apresentou-se dobrado em português do Brasil, provavelmente por não existir uma versão em português de Portugal.

O Mapa

O mapa de Maneater está dividido em oito regiões. Cada região tem uma série de objetivos, e cada objetivo atribui vantagens ao nosso tubarão. Todas as regiões estão inseridas num ambiente aquático, aberto, e mais ou menos paradisíaco. Entre um resort turístico, com iates luxuosos, motas de água, praias e belos palacetes, e um depósito radioativo, cheio de detritos fluorescentes, algas estranhas, e peixes elétricos, viajamos de forma linear, sem voltar para trás, com dificuldade crescente. Dentro de cada região podemos navegar livremente, mas só numa fase mais avançada do jogo podemos voltar para uma região que já ultrapassámos. Isto acontece porque todas as regiões estão ligadas por condutas ou portões que só conseguimos destruir quando o nosso tubarão for grande e forte.

Os mapas estão excecionalmente detalhados. A parte submersa é mais rica do que a superfície, o que me parece óbvio ou não fosse esse o habitat do nosso peixe. Isto não significa que a superfície tenha sido descorada. O sentimento de profundidade, as decorações das costas, os barcos e as estruturas estão bem conseguidas. Nada aqui é excepcional, mas cumpre com a expetativa de forma agradável. O fundo das baías e dos rios inclui vários detalhes inesperados. Não só o lixo urbano abunda nos ambientes mais poluídos, como nos mais paradisíacos chegamos a ver o sol refletir no fundo, criando belos efeitos de luz.

Infelizmente, na PlayStation 4, foram notórios algumas quebras de frame rate, com paragens inconvenientes que estragam a ação. Não é algo que comprometa a jogabilidade, mas não deixa de ser por vezes um pouco aborrecido.

A Fauna

Todas as regiões incluem mais habitantes do mundo subaquático. Desde a mais pequena sardinha, até às baleias assassinas, ninguém faz frente ao mais perigoso predador – o nosso tubarão!  Ele é o predador alfa, o rei dos mares, o líder do cardume. Mas isto não acontece da noite para o dia. Temos de provar que somos merecedores do título e para isso temos de matar! Matar repetidamente! Matar muitas vezes! Pronto, já cá faltava a violência selvagem!

A fauna mais acessível e aquela que nos dá mais vantagens é o consumo de humanos! Relembro que a nossa primeira refeição foi a mão de Scaly Pete, que fez da carne humana o prato principal e o mais apreciado. Mas atacar humanos não é assim tão simples e incorpora riscos. Embora estes petiscos não respondam aos ataques, estão muitas vezes em locais inacessíveis para um simples peixe. Para os abocanhar, somos forçados a saltar pontões, subir para o areal das praias, ou saltar para os barcos que navegam tranquilamente nos percursos predefinidos. Também há humanos a banharem-se nas águas, mas estes, em menor quantidade, por vezes tentam fugir para as praias, pelas suas preciosas vidas digitais!

Atacar muitos humanos eleva o nosso grau de infâmia, e se esta atingir um certo limite, somos presenteados com uma equipa de caçadores que aparece para eliminar a ameaça, ou seja, o nosso querido guelras de dente afiado.

Como alternativa, temos à nossa disposição um belo manjar dos deuses em cada canto submerso do mapa. A quantidade de peixes é suficiente para repetirmos a refeição sempre que quisermos, ou tivermos necessidade. Comer peixe, ou alimentar-nos, não é só uma necessidade, mas uma exigência se quisermos evoluir. Sobre a evolução, tenho um capítulo exclusivo mais à frente, que explica com detalhe todo o processo.

Já que falamos em peixes, falta ainda explicar que nem todos estes amiguinhos são pacíficos. Entre douradas e garoupas, também há peixes elétricos, pequenos e grandes predadores, peixes especialmente habilidosos no ataque, focas pacificas, e depois também temos os crocodilos. Os crocodilos são os seres mais inconvenientes, uns autênticos chatos, que nos perseguem incansavelmente quando dão connosco. Eliminá-los seria uma opção, mas confrontar aquelas mandíbulas gigantes não é tarefa fácil, especialmente numa fase inicial do jogo.

As Missões

Maneater inclui dois tipos de percursos. As missões de cada mapa, onde o jogador tem de concluir uma série de objetivos locais, como caçar um determinado peixe ou um número de humanos, destruir uma estrutura ou encontrar uma caverna, e as conquistas, que incorporam missões globais associadas ao progresso da história de Maneater.

Na generalidade, as missões têm como objetivo a destruição ou eliminação de algo e, apesar de se apresentarem em número suficiente para manter o jogador ocupado durante algumas horas, falta diversidade e alguma criatividade. Concluir estas missões atribui recompensas que podem ser em forma de recursos, habilidades ou equipamentos. Sim, o nosso tubarão guarda recursos num bolso virtual, adquire habilidades por atingir um certo grau de maldade e veste equipamentos hi-tech capazes de fazer a diferença na arena. É certo que Maneater não é um simulador, e qualquer fantasia é compreensível e atribui ao jogo alguma originalidade, mas não deixa de ser engraçado imaginar que subitamente ganhamos uns dentes elétricos depois de eliminar um determinado caçador de tubarões.

Maneater apresenta uma função de rastreamento muito útil. Ou seja, no menu de missões, somos capazes de selecionar uma missão em particular, ativando assim todas as marcações no mapa de jogo. Qual a zona onde temos de capturar um conjunto de peixes, onde está o nosso inimigo que temos de eliminar, enfim, uma parafernália de símbolos que nos ajudam, e muito, a navegar nestes labirintos aquáticos.

As conquistas estão associadas ao progresso na história de Maneater. Não são seleccionáveis, apenas temos uma breve apresentação da lista de objetivos ativos. Aqui, basta continuarmos a jogar para ir completando a lista.

Os Caçadores

São maus e cada vez mais difíceis de eliminar, mas atribuem importantes recompensas sempre que conseguimos trincar algum. Desde o mais fácil Bayout Willy, que é o primeiro a tentar capturar-nos, mesmo que ainda sejamos um jovem tubarão, até ao complicado Capitão Robert Brunlett, são 10 caçadores que vão tentar a sorte na captura da sua presa mais valiosa – nós!

A mecânica funciona como uns pequenos bosses de nível, apesar de que, aqui, os caçadores não estão limitados a nenhuma região e aparecem de forma sucessiva, sempre que o nosso grau de infâmia atinge um certo nível. Como já expliquei, o grau sobe progressivamente à medida que formos multiplicando as nossas ações de pânico junto dos humanos. Atacar banhistas, atentar contra embarcações, ou matar outros caçadores, são algumas opções que contribuem para fazer soar as sirenes de alarme e destacar um destes caçadores, e a sua equipa, para nos capturar. Se conseguirmos matar o caçador, podemos continuar a espalhar o caos, que irá ativar o próximo caçador, e assim sucessivamente. Ou seja, se nos sentirmos confiantes, podemos percorrer todos os caçadores de uma só vez, o que não será expectável, até porque eles são cada vez mais difíceis de combater.

Eliminar um caçador atribui recompensas importantes. Não só colecionamos mais recursos, como cada caçador inclui uma nova habilidade ou equipamento, crucial para o desenvolvimento do nosso tubarão.

Os caçadores são tão maus que são os únicos humanos que tentam eliminar-nos. Se o jogo, em vez de promover a carnificina exagerada, tentasse justificar o conflito com os humanos com a presença destes caçadores, talvez não parecesse tão básico na sua premissa. Afinal de contas, não seria necessário devorar todos os banhistas da praia para sermos perseguidos por estes perigosos pescadores.

Evolução

Esta é a parte mais importante que define o progresso no jogo e o desenvolvimento do tubarão. Prometemos vingar a morte da sua mãe, e para isso temos de alimentar o nosso guelras, fazê-lo crescer, e torná-lo forte, insuperável e invencível. A evolução pode ser feita de diversas maneiras. Através da alimentação de outros peixes, pelo consumo de humanos e pela obtenção de novas habilidades e equipamentos.

A evolução é medida através de vários índices, que se conjugam num único atributo – o nível de experiência. Para fazer subir este nível de experiência temos de colecionar recursos, adquirir habilidades e equipamentos, e tudo isto só se consegue através de uma única forma – matar tudo e todos!

Os recursos são colecionados através da conclusão de missões, eliminando caçadores, mas também pelo consumo de outros animais aquáticos e humanos. Para além de atribuírem pontos para a nossa experiência global, também servem como moeda de jogo para evoluir as habilidades ou os equipamentos. Por sua vez, quanto maior for o nível de uma habilidade, mais pontos de experiência ganhamos, logo, os recursos são duplamente benéficos.

As habilidades são características inatas orgânicas do nosso tubarão, como o ‘sonar’, que pode ser ativado entre intervalos de tempo para dar uma visão clara do que nos rodeia, a ‘digestão de minerais’, que faz aumentar a quantidade de recursos que recolhemos pelo consumo de outros peixes e o ‘saudável’, que aumenta a vida máxima e a capacidade de resistência a ataques corpo a corpo. O jogo chama-lhes órgãos, e estes são os três primeiros equipáveis. De acordo com a nossa preferência, podemos substitui-los por outros, como a ‘digestão de mutagénicos’, e evoluí-los para os tornar ainda mais eficazes.

Os equipamentos são estruturas músculo-esqueléticas do nosso tubarão que variam entre a cabeça, a mandíbula, a cauda, o corpo e as barbatanas. Entre uma barbatana elétrica, ou uns dentes perfurantes, as opções são variadas e cada uma delas pode ser melhorada pelo uso dos recursos que colecionamos.

Juntar recursos, melhorar as habilidades e equipamentos, fazem subir os índices do nosso tubarão. Aqui, a opção não é linear. Não vamos poder maximizar todos os índices e algumas escolhas terão de ser feitas. Será melhor um tubarão mais atacante? Ou defensivo? Vamos investir na quantidade de vida disponível, ou preferimos apostar na velocidade?

A evolução em Maneater é uma das principais características e uma boa surpresa num jogo que se promove muito mais pela violência, do que pela sua interessante componente RPG. Fica o sentimento de que este é um jogo com grande potencial desperdiçado num conceito básico.

Veredito

Com tanto de bom que este jogo tem para oferecer, ficamos desmotivados pela forte aposta numa característica completamente escusada. A violência gráfica em Maneater dá razão aos defensores da ideia que os jogos são nocivos para as crianças e exageradamente violentos para uma sociedade frágil e manipulável. Maneater tem excelentes ideias para um RPG subaquático, com uma riqueza incomparável, sendo um dos jogos mais ricos debaixo de água. Por outro lado, desfaz todo o encanto com os violentos ataques despropositados e uma premissa de destruição e caos. Este é um jogo impróprio para pacifistas!

Numa altura em que os jogos são cada vez mais violentos, com universos inventados em torno de terríveis cataclismos ou guerras mundiais, Maneater segue uma tendência fatalista onde um tubarão é capaz de devorar tudo e todos, enquanto é perseguido por impiedosos caçadores que são também eles fundamentalistas. Um jogo brilhante com uma mensagem decepcionante.

A melhor característica em Maneater é o seus sistema RPG, que incorpora ideias inovadores, inesperadas e uma componente muito desenvolvida que encaixa bem numa temática subaquática incomum. Com um protagonista improvável, Maneater leva-nos a explorar um universo satirizado, onde as paisagens paradisíacas contrastam com depósitos radioativos e poluição generalizada.

Apesar de alguns problemas de desempenho gráfico notados na PlayStation 4, a ausência de um modo multijogador local ou online, e a dependência do idioma da consola, Maneater acrescenta um sentimento duplo, onde uma ideia original e inovadora ficou aquém de todo o seu potencial. Se o trailer prometia muito pouco, o jogo acrescentou algo mais, que, apesar de tudo, não chega para ser brilhante. Maneater acaba por ser um jogo atípico com um protagonista incomum.

[Esta análise foi baseada na versão retail do jogo para PlayStation 4, gentilmente cedida pela Ecoplay.]

Positivo
Sistema RPG com boas ideias é inovador e interessante.
Protagonista incomum, num jogo atípico.
Ambiente aquático rico e detalhado.
Mecânica do tubarão é convincente.
Grandes áreas para explorar.
Negativo
Premissa básica e desmotivante que incita à violência para poder superar o jogo.
Pouca variedade nas missões e tarefas.
Ausência de qualquer modo multijogador.
Alguns problemas no desempenho gráfico.
Dependência do idioma da consola.
60
Razoável
Actigamer