Análise: Catherine Full Body

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Um jovem com fobia ao compromisso, bloqueios mentais que devem ser ultrapassados, decisões a tomar, consequências e mistério, e tudo isto embrulhado num notável design ao estilo anime, Catherine Full Body é um jogo que rompe com as convenções e limites de género. Estas são provavelmente as características que melhor definem este novo remake de Catherine, um invulgar jogo que mistura uma aventura narrada com puzzles de plataformas.

Desenvolvido e publicado pela Atlus (Studio Zero) para a PlayStation 4 e PlayStation Vita (este último apenas no Japão), Catherine Full Body é um remake do jogo lançado originalmente em 2011 para a PlayStation 3 e Xbox 360 e, mais tarde, em 2019, para o PC, como Catherine Classic.

A história coloca-nos na pele de Vincent Brooks, um homem que é atormentado por pesadelos sobrenaturais, dividido entre os seus sentimentos pela namorada de longa data, Katherine, e a jovem de nome semelhante, Catherine. A jogabilidade é dividida entre o dia, onde Vincent interage com os personagens numa simulação social, e os seus sonhos, onde ele deve navegar pelas torres tridimensionais, através de plataformas onde tem também de solucionar vários quebra-cabeças. O final do jogo é afetado pelas escolhas feitas por Vincent ao longo da história.

Catherine foi desenvolvido pelo mesmo estúdio responsável pela saga Persona, incluindo o produtor e diretor Katsura Hashino, o designer de personagens Shigenori Soejima e o compositor musical Shoji Meguro. Catherine Full Body é quase como que um Director’s Cut do original, com muitos conteúdos novos, mais níveis, visuais melhorados e finais alternativos. Depois de quase oito anos desde o seu lançamento original, será que todo o fascínio da história se mantém? A resposta só a teremos depois de voltarmos a vestir a pele de Vincent, e saltarmos para a enormidade de conteúdo que é esta edição Full Body.

Catherine Full Body

Catherine Full Body

Como já referimos, Catherine não se insere em apenas um género, variando constantemente no seu estilo, conforme avançamos pela história. À primeira vista, podíamos considerar que estamos perante uma visual novel, uma história interativa ao estilo anime, em que alteramos o destino dos personagens dependendo das nossas escolhas, e que, por forma de complementar a oferta, apresenta também minijogos de plataformas. No entanto, Catherine é bem mais do que isso!

Estas combinações de géneros são um fenómeno relativamente recente no mundo dos videojogos. Antigamente tudo era mais simples. Os jogos baseavam-se em formas elementares, e os objetivos eram lineares e diretos. Tínhamos de cobrir uma linha com blocos, destruir todos os adversários, ou marcar um golo numa baliza do tamanho de toda a lateral do ecrã. Ao longo do tempo essa simplicidade deixou de ser suficiente. As histórias foram tornando-se mais complexas, os gráficos melhoraram, por vezes a níveis quase foto realistas, a exigência dos jogadores também cresceu, e os objetivos misturam agora diversas áreas e estilos de jogo.

Com Catherine, a Atlus levou este princípio a um outro nível. Os elementos de história e quebra-cabeças misturam-se de forma equilibrada durante as quase 18 horas de jogo. A narrativa, que aborda temas profundos como o medo da traição nos relacionamentos e os problemas psicológicos, foi muito irreverente na época do seu lançamento para a PS3 e Xbox 360, há quase oito anos, tendo em conta a oferta na altura. Além disso, Catherine oferece maneiras muito subtis de moldar a progressão para múltiplos finais diferentes, agora com mais opções do que o título original.

Entramos na história do programador Vincent, com os seus medos relacionais e todos os seus problemas. Às vezes são as pequenas coisas, que parecem triviais, que fazem a diferença. Pessoas com quem falamos (ou não), as respostas que damos, ou aquelas que ficaram por dar. Mas, muitas vezes, tomamos as decisões mais importantes para a nossa vida quase casualmente ou inconscientemente, e é esse mesmo ponto que o jogo destaca tão bem.

Catherine Full Body
Catherine Full Body. Imagem: Atlus

Simulador Social

Catherine Full Body regressa com todas as metáforas, alusões estranhas e as referências sexuais discretas (e também, por vezes mais diretas) que o seu antecessor. A mistura de cenas em estilos diferentes, em gráficos de jogo e cenas de anime, ainda mantém o seu charme, com transições quase perfeitas, conforme avançamos pela história. Mas a Full Body Edition é mais do que apenas uma remasterização HD.

A Atlus não poupou esforços ou despesas para dar ao jogo, que já se pode considerar de culto, uma carga completa de novos conteúdos. E isso não significa apenas novos quebra-cabeças, ou melhoria dos já existentes, ou muitos mais níveis do que antes. Mesmo na história, Rin, outra figura feminina na rede de relacionamentos de Vincent, foi inserida na trama, que já incluía o seu amor de longa data Katherine e o seu novo relacionamento com Catherine.

Catherine Full Body
Catherine Full Body. Imagem: Atlus

Enriquecida com dezenas de novas sequências e conversas, a história ganhou novos aspetos que se encaixam perfeitamente com os já familiares para quem jogou o original. Para garantir a continuidade do conteúdo, até as vozes utilizadas no original, foram trazidas de volta para interpretarem o seu papel com os novos elementos.

No Mundo dos Pesadelos

À parte da trama social, as secções de quebra-cabeças continuam tão objetivas e motivantes quanto antes. Somos convidados a escalar uma enorme torre de blocos, na pele de um Vincent em cuecas e transfigurado com uns chifres de ovelha.

Para chegar ao topo, devemos mover e arrastar repetidamente os blocos em duas direções. Como o movimento vertical não é permitido, temos de mover os blocos para a direita e para a esquerda e para dentro ou para fora do ecrã. Não existe limite nos movimentos de uma peça, e além disso, podemos caminhar ao longo dos blocos e tirar proveito de uma regra que desafia a gravidade neste mundo dos pesadelos. Quando um bloco está colado a outro, por apenas um dos lados, ele não pode cair.

Catherine Full Body
Catherine Full Body. Imagem: Atlus

O nível cada vez maior de dificuldade adiciona gradualmente tipos de blocos extra. Isso inclui, por exemplo, blocos imóveis e blocos cujo peso os faz mover lentamente para baixo, ou elementos que desencadeiam uma contagem decrescente, causando uma explosão do bloco e pedras adjacentes. Existem também outras armadilhas, como blocos mortais de espinhos e os blocos de gelo sobre os quais se pode cair no abismo, que não devem ser subestimados.

A banda sonora que acompanha os desafios é estranhamento eclética. Noutros jogos, geralmente jogamos este tipo de desafios com elementos musicais eletrónicos, ou algum tipo de som acelerado. Com músicas de Bach, Handel, Mussorgsky ou Beethoven, Catherine destaca-se mais uma vez com melodias que, talvez surpreendentemente, encaixam na perfeição no ambiente e estilo dos puzzles que somos desafiados a concluir.

Esta reedição Full Body acrescenta a opções de escolhermos entre alguns dos enigmas clássicos ou jogar uma versão modificada dos mesmos. Aqui, além dos blocos de handicap, são acrescentados alguns blocos de diferentes larguras ou alturas, adicionando uma camada extra de dificuldade. Os jogadores que já tenham ultrapassado os quebra-cabeças originais, podem encontrar aqui um novo desafio, e alguma motivação extra para os repetir. Para os jogadores que tenham menos paciência para estas secções, existe sempre a ajuda da Rin, e ainda um “modo de segurança” onde podemos assistir enquanto vemos Vincent a empurrar os blocos. Podíamos chamar-lhe “Tetris com um Twist”, mas é um pouco mais do que isso.

Catherine Full Body
Catherine Full Body. Imagem: Atlus

Conteúdo Alargado

Além das adições narrativas e de personagens, o conteúdo de Catherine Full Body continua tão multifacetado quanto o original. Com diálogos inteligentes, e uma atmosfera de música e de câmara agradáveis, é possível conversar com inúmeras personagens extra. Além dos amigos mais diretos de Vincent, podemos falar também com os outros visitantes do bar Stray Sheep, onde o nosso personagem principal passa a maior parte do seu dia.

Catherine Full Body
Catherine Full Body. Imagem: Atlus

Se quisermos, podemos até tornar mais fáceis os quebra-cabeças do seu “mundo dos pesadelos”. Para isso, teremos de beber um pouco no bar. Cada um dos três níveis de embriaguez faz Vincent mover-se mais rápido, além disso, ainda podemos encontrar informações sobre cocktails e outras curiosidades. Existem sempre formas de escaparmos a alguma das temáticas de Catherine Full Body se assim desejarmos. Se preferirmos escapar à componente social do jogo, basta irmos para casa mais cedo. Por outro lado, se não tivermos paciência para os quebra-cabeças, podemos utilizar as ajudas que referimos antes. No entanto, todas estas secções fazem parte do que torna este multifacetado jogo único e divertido, e na nossa opinião merecem ser, pelo menos, experimentadas.

Confronto de Emoções

As secções de quebra-cabeças ou plataformas, não são apenas convincentes no seu design sofisticado, que muitas vezes apresenta mais do que uma maneira para serem completadas. No final de cada nível temos de derrotar uma espécie de Boss. O objetivo principal permanece o mesmo, devemos conquistar o nível mais alto da torre, onde uma porta se vai abrir. Como novidade, esta versão inclui ainda um novo modo online, onde podemos competir contra outros jogadores reais, uma adição muito bem-vinda e que alarga ainda mais a longevidade e interesse deste jogo.

Catherine Full Body
Catherine Full Body. Imagem: Atlus

Os inimigos, que são em grande parte uma personificação monstruosa dos medos de Vincent, atacam-no repetidamente enquanto ele sobe, manipulando o ambiente para que os blocos acabem por desmoronar ou transformarem-se em cubos de gelo, atirando Vicent para o abismo. Os produtores não optaram pela via mais fácil de apenas colocar um tempo limite para completar as missões, e em vez disso somos compelidos a completar o nível pelo próprio desafio que ele nos pode colocar ao longo do tempo. Isto significa que quanto mais tempo levarmos a completar um desafio, a dificuldade vai subindo gradualmente, tornando a nossa própria ineficiência o maior inimigo.

Entre as seções existem zonas pacificas, onde podemos gravar o jogo e conversar com outras ovelhas capturadas neste espaço de pesadelos. Uma ou outra voz até nos pode parecer familiar, e se procurarmos bem, vamos encontrar outros personagens que Vincent pode interagir no mundo exterior. Desta forma, abre-se uma nova dimensão narrativa, na qual ambos os mundos e os destinos de todos os personagens estão diretamente ligados.

Não podemos deixar de referir que existem pequenos problemas nos controlos quando estamos dentro das secções de pesadelos, principalmente no que diz respeito ao touchpad. No entanto, pareceu-nos que são facilmente esquecíveis e ultrapassáveis, tendo em conta que este jogo não pretende o realismo tátil, tratando-se apenas de um arcade com o objetivo de entreter o jogador, levando até a compensar a habilidade do jogador.

Questões Morais

Um detalhe curioso é o facto do próprio jogo colocar-nos questões morais, como por exemplo se “a vida termina com o casamento” ou se achamos o contrário. No caso de estarmos com a consola ligada à Internet, seremos até confrontados com um gráfico em forma percentual, que mostra como a comunidade respondeu à mesma questão. No caso de estarmos a jogar no modo offline, os resultados são apenas representativos, provavelmente baseados em alguma forma de sondagem prévia.

Estas perguntas são parte dos “Confessionals” colocados no final de cada cenário dos pesadelos, e são relevantes para o nível emocional de Vincent. Achámos curioso o estilo de estudo que este detalhe nos coloca, principalmente por desvendar a estatística geral da comunidade. Obviamente, estas questões também influenciam o destino do nosso personagem, pelo que podemos ser tentados a responder o que nos convém para a história. Afinal, quando jogamos, estamos a encarnar a pele de Vincent ou a de nós próprios à sua imagem? Essa é certamente uma decisão inteiramente pessoal.

Catherine Full Body
Catherine Full Body. Imagem: Atlus

VEREDITO

Catherine Full Body é uma completa montanha-russa de conteúdo e de emoções, levando o conceito de ‘remake’ um pouco mais longe do que estamos habituados. Alternando de forma fluída entre uma aventura de narrativa, e um jogo de quebra-cabeças, Catherine não perdeu as qualidades que o destacaram originalmente. Muito pelo contrario! Com novos personagens, novas variações de puzzles, quebra-cabeças originais, mais finais alternativos e um novo modo online, a edição Full Body oferece bem mais do que o seu antecessor, lançado há já oito anos.

As secções de “simulação social”, ou de história, se assim lhe preferirmos chamar, são variadas e apresentam questões muito pertinentes, envolvendo as relações humanas, o medo da traição, ou a insegurança de cada um de nós. O visual ao estilo anime complementa bem uma narrativa que é explosiva, excitante, e acima de tudo, alterável pelas nossas escolhas. A componente de plataformas não deve ser também esquecida, sendo por si só um dos grandes destaques de Catherine. A forma original como utiliza a sua forte inspiração no Tétris e o reinventa, não perdeu o encanto ao longo dos anos, e os novos remix de puzzles já conhecidos, garantem um desafio até para os jogadores que estão a repetir a experiência. Catherine Full Body é uma experiência inigualável dentro de um género irreverente e original. Não procura apenas entreter, leva-nos a uma introspeção interna das nossas próprias convicções e sentimentos.

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Positivo
Uma mistura interessante entre um jogo de aventura e quebra-cabeças.
Estilo visual anime de boa qualidade, tanto na versão desenhada como em 3D.
Muitos personagens e finais alternativos bem encaixados.
Novo modo online confere mais horas de jogo.
História interessante com questões sociais pertinentes.
Negativo
Pequenos erros de jogabilidade nas secções de plataformas.
Alguns dos finais parecem algo superficiais.
Estilo visual pode não agradar a todos os tipos de jogadores.
8.7
Muito Bom

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